Microsoft is Dead.

 

Já que o nosso professor comentou sobre o artigo, quem tiver interesse encontrei a tradução do artigo original de Paul Graham publicado em abril de 2007. 

Paul Graham descreve como, a seu ver, a Microsoft está completamente perdida e equivocada, em tudo o que ela faz, que acaba por resultar em falhanços catastróficos. Continua a escrever o autor, que ninguém na indústria tem mais medo da Microsoft, pois ela não consegue competir com nenhuma empresa já que, como empresa monopolista, está acostumada com o comodismo de uma operação sem qualquer concorrência. 

Há alguns dias percebi, repentinamente, que a Microsoft estava morta. Estava a conversar com o fundador de uma nova empresa, sobre como o Google era diferente do Yahoo de início. Então, mencionei como o Yahoo foi impulsionado, de início, pelo medo que tinha da Microsoft. Lembro-me de que o medo fez o Yahoo rotular-se como “uma empresa multimédia” em vez de “uma empresa tecnológica”, apenas para não atrair a atenção da Microsoft. Ao terminar de dizer isso, percebi que ele não havia percebido o que eu tinha falado. Era como se eu tivesse dito o quanto as gajas gostavam de Barry Manilow nos anos 80. Barry quem? 

Microsoft? Ele não disse nada, mas percebia-se que não acreditava que alguém pudesse ter medo da Microsoft

A Microsoft lançou uma sombra sobre o mundo do software durante quase 20 anos, a partir do início dos anos 80. Lembro-me de que, antes da Microsoft, a IBM era o grande gigante. Apesar de nunca ter utilizado software da Microsoft, sempre fui afectado, indirectamente, no spam que recebia, por exemplo. Nunca prestei muita atenção à Microsoft e, por isso, não apercebi-me do desaparecimento da sombra. Mas agora que resolvi observar vejo que, de facto, desapareceu. Ninguém tem mais medo da Microsoft. Obviamente, ainda continuam a obter milhões e milhões de lucro, assim como a IBM ainda o faz. Entretanto, são agora inofensivos. 

Quando foi que a Microsoft faleceu e porque isso ocorreu? Eu sei que eles pareciam mais perigosos do que de facto eram, no final de 2001, pois escrevi um texto, na altura, sobre isto. Penso que a morte deu-se em 2005. Quando fundei uma empresa chamada Y Combinator, lembro de que a Microsoft não estava na nossa lista de preocupações. De facto, nem os convidámos para a demonstração que fizemos a vários investidores. Convidámos o Google, o Yahoo e outras empresas, mas nem sequer lembrámos de convidar a Microsoft. Aliás, eles nem chegaram a nos enviar nenhum email. Vivem num mundo à parte. 

O que causou a morte da Microsoft? Penso que foram quatro coisas. 

A mais óbvia é o Google. Só pode haver um gigante na cidade e o gigante é o Google que aliás é hoje a companhia mais perigosa – tanto no bom como no mau sentido da palavra. 

Quando o Google alcançou a liderança? Alguns poderão dizer que a liderança ocorreu quando o Google lançou as suas acções no mercado, entretanto, acho que a liderança foi alcançada em 2005, quando lançaram o Gmail. O Gmail mostrou que o Google podia fazer mais do que ser apenas um search engine. 

O Gmail, a meu ver, foi a segunda causa da morte da Microsoft e mostrou o quanto se poderia fazer com um software a funcionar na web (não instalado no computador). Hoje até a Microsoft vê que mais e mais aplicações funcionarão pela web. Não só emails, mas tudo, inclusive programas com o Photoshop

Uma das tecnologias usadas no Gmail foi o AJAX. Irónicamente, a Microsoft, sem querer, ajudou a criar o AJAX no final da década de 90 para ser usado no Outlook. O X da sigla AJAX, significa XHTML HTTP Request, que permite a comunicação do browser com o servidor enquanto a página está a ser visualizada, sem a necessidade de ter de carregá-la novamente. 

Outro componente crítico do AJAX é o Javascript, a linguagem de programação que corre no browser. A Microsoft percebeu o quão perigoso era o Javascript, desde o início e (ao assumir a liderança dos browsers com o Internet Explorer) tentou manter o Javascript sempre a funcionar mal no seu browser – para evitar o perigo. Entretanto, eventualmente os programadores de open source perceberam a vigarice e produziram bibliotecas grátis que supriram os “defeitos” do Internet Explorer e fizeram-no funcionar, correctamente. Foi uma tarefa tão árdua como como fazer crescer vegetação sobre arame de farpa. 

A terceira causa de morte da Microsoft foi a Internet banda larga. Qualquer pessoa pode, hoje, ter acesso à Internet de banda larga. E quanto maior a velocidade, menos dependência o utilizador precisa de ter de um programa instalado no seu próprio computador. 

O último prego no caixão da Microsoft veio da Apple. Graças ao Mac OS X – e dos iPod (N.T.) – , a Apple ressurgiu dos mortos, de uma forma totalmente invulgar na área tecnológica. A sua vitória é tão completa que agora me surpreendo quando vejo um computador a correr o Windows. Quase todos os meus clientes usam portáteis da Apple. O mesmo acontece com os alunos das minhas escolas. Todos os que conheço estão a usar Mac ou Linux. Windows é para avózinhas, como o Mac era na década de 90. Qualquer pessoa que lide com informática a sério, não usa mais produtos da Microsoft

Obviamente, a Apple também está a liderar e a derrotar a Microsoft na música (com os iPod e iTunes) e não nos esqueçamos dos telemóveis (iPhone) que aí vêm (em junho de 2007). 

Estou feliz pela Microsoft ter morrido. Eles eram como Nero ou Cómodo – malígnos de uma forma que apenas o poder herdado torna possível. Lembremos que o monopólio da Microsoft foi recebido de presente da IBM. O negócio do software esteve enforcado por um monopólio de 1950 até 2005 – praticamente durante toda a sua existência. Uma das razões da Web 2.0 ter esse ar eufórico é o sentimento, consciente ou não, de que a era monopolísta acabou, finalmente. 

É claro que, como um hacker, continuo a pensar de que pode haver uma hipótese da Microsoft renascer. Teoricamente, existe esta hipótese. Lembremos de que a Microsoft ainda tem uma quantidade de dinheiro muito grande e lembremos de que há dez anos atrás, Sergey Brinn e Larry Page (fundadores do Google), estavam a bater de porta em porta a tentar vender a ideia do Google por um milhão de dólares, antes de terem sido rejeitados e resolverem criar a própria empresa. 

Isso leva à conclusão de que programadores e criadores brilhantes – perigosamente brilhantes – podem ser conseguidos por muito pouco, principalmente, para uma empresa com tanto dinheiro. Então, a receita para o renascimento da Microsoft poderia ser, por exemplo: 

  1. Comprar todas as empresas de Web 2.0 que surgirem para eliminar a concorrência.
  2. Colocar todas elas em Silicon Valley, num local isolado com uma couraça de chumbo, para impedir qualquer contacto com os executivos de Redmond.

Sinto-me seguro em fazer esta sugestão, porque sei que nunca o farão. A maior fraqueza da Microsoft é ainda não ter percebido o quão péssimos e incompetentes eles são. Eles ainda pensam que têm a capacidade de desenvolver software. 

Eu sei qual será a reação a este artigo. Metade dos leitores vai dizer que a Microsoft ainda é uma companhia rentável e que eu deveria ser mais cuidadoso ao traçar conclusões baseadas no pensamento de alguns da Web 2.0. A outra metade, a mais jovem, vai reclamar de que estou a dar uma notícia velha. 

Curioso para ver o arquivo original? Você pode encontrar no blog de Paul Graham. Aproveite!